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quinta-feira, 5 de julho de 2018

INOCENTE (INNOCENT)

inocente

Logo cedo, um coraçãozinho inocente,
apertado, pesado, apreensivo, estremecido pelo medo.
Vejo as lágrimas lhe brotarem dos olhos assustados,
as mãos tentarem contê-las
e lábios tremerem incessantemente
enquanto me conta,
com a voz fraca e entrecortada por soluços,
o que acontece em casa se faz 'algo errado',
e me confidencia o que realmente pode ter feito
para estar alimentando o medo
que eu vejo neste momento.

De repente, as lágrimas já secas,
as mãos nos bolsos da blusa de frio,
o coração vai à porta e se põe
a observar a esquina ao pé do morro,
de onde espera ver surgir sua mãe,
que vai seguir para a porta da escola
e por ela entrar para cumprir o cúmulo do medo que o aborda:
o julgamento de seu comportamento.

A passos curtos mas rápidos,
deixa atrás de si a porta, volta para diante do balcão
e me mostra um sorriso de problema quase resolvido
enquanto cogita, em voz alta,
mais consigo mesmo do que comigo,
uma fuga para a casa de uma avó ou de uma tia;
mas logo volta a estremecer ao pensar
que, uma hora ou outra, querendo ou não,
terá que voltar para casa
e lá encontrará o pai e a mãe,
que têm uma memória muito boa
para guardar os atos ainda não corrigidos dos filhos.

Proponho que vá encontrar a mãe no caminho,
ou entrar para a escola quando a vir chegar,
e conversar, expor aquelas explicações dadas a mim
também a ela e à pessoa incumbida de tratar
o comportamento dos alunos.
'Mas ela não vai acreditar em mim!
Ela não vai entender!', escuto em resposta.
Eu insisto; não adianta.
'Mas você não conhece meu pai:
depois que minha mãe bate,
mais tarde, quando meu pai chega,
é a vez dele.'

Ainda tento insistir um pouco mais, mas é em vão;
tal inocente coração já tem em si,
e pode ser que tenha para sempre,
a opinião de que é difícil,
ou mesmo impossível,
encontrar, apenas pelo diálogo,
uma solução.

Wiler Antônio do Carmo Jr.

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terça-feira, 26 de junho de 2018

CAMADA DE POEIRA (LAYER OF DUST)


camada-de-poeira


Com a fina camada de poeira que a cobre,
como parte de um todo que dela depende,
a pequena folha experimenta uma perda,
pois os raios de luz que chegam do sol
não a tocam por inteiro,
e ela não cumpre sua função tão bem como deveria;
mas experimenta também um ganho:
a proteção do todo contra algo ruim
que pode chegar pelo ar,
soprado pelo vento,
assim como fez a própria poeira.

-

With the thin layer of dust that covers her,
as part of a whole that on her depends,
the little leaf experiences a loss,
for the rays of light that arrive from the sun
do not touch her entirely,
so she can not perform her task as well as she should;
but she also experiences a gain:
the protection of the whole against something bad
that may come through the air
blown by the wind
just as did the dust itself.

-

Wiler Antônio do Carmo Jr.





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domingo, 24 de junho de 2018

'o museu' está disponível na Amazon

'o museu' está disponível na Amazon / 'the museum' is available on Amazon



"o museu" é uma coletânea de poemas que escrevi durante a minha adolescência, pouco depois de descobrir que o papel era (e continua sendo) um grande amigo, simplesmente por não reclamar ou zombar das palavras e dos sentimentos que são entregues a ele.
Há pouco tempo, resolvi editá-la e publicá-la independentemente. :)


EDIÇÃO EM PORTUGUÊS | PORTUGUESE EDITION
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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

NUMA DOSE DE CAFÉ

numa dose de café

Sentido para a vida?
Não sente, não vê?
Pense, um instante pelo menos,
que respirar seja o sentido que anseia.
Inspire profundamente.
Expire.
De novo.
Prossiga.
A vida lhe entra pelo nariz
(sente?),
sai e volta outra vez,
sua máquina humana operando.
Permite que a vida lhe entre pelos olhos,
mostre-lhe ao redor a grandeza da natureza,
do que ela foi,
do que ela é,
do que você foi,
do que é,
do que será,
do que seremos,
do que faremos.

Basta continuar
caminhar, correr, sonhar,
lutar, sorrir, conquistar,
inspirar tanta vida,
expirar tanta vida,
enxergar tanta vida
quanto pudermos até
que não mais aguentemos
e a devolvamos toda
para quem nos emprestou.

Wiler Antônio do Carmo Jr. 

domingo, 30 de outubro de 2016

RARO

raro

Porque o raro salta aos olhos
e distrai a mente;
Faz voar e viajar por lugares distantes,
Adentrar florestas e desertos imensos,
Explorar os extremos de rios e mares,
Justificar o abstrato através do concreto,
Explicar o céu a partir da terra,
Entender o complexo com as mãos dadas à simplicidade,
Sustentar o óbvio observando o duvidoso,
Sentir a vida e ignorar a morte,
Incitar a guerra apontando para a paz,
Crer na grandeza com os olhos pairando sobre a miudeza.

Wiler Jr. - 20/10/2016

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A CORRIDA DE SAPINHOS


Era uma vez uma corrida de sapinhos.


Eles tinham que subir uma grande ladeira e, do lado havia uma grande multidão, muita gente que vibrava com eles.

Começou a competição.

A multidão dizia:

– Não vão conseguir! Não vão conseguir!

Os sapinhos iam desistindo um a um, menos um deles que continuava subindo. E a multidão a aclamar:
– Não vão conseguir! Não vão conseguir!
E os sapinhos iam desistindo, menos um, que subia tranquilo, sem esforço.
No final da competição, todos os sapinhos desistiram, menos aquele.
Todos queriam saber o que aconteceu, e quando foram perguntar ao sapinho como ele conseguiu chegar até o fim, descobriram que ele era SURDO!

Moral:
Quando queremos fazer alguma coisa que precise de coragem não devemos escutar as pessoas que falam que você não vai conseguir. Seja surdo aos apelos negativos.

Fábula escrita por Monteiro Lobato.


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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

ANTÍTESE DA VIDA

Foto: @wilerjrxd

Com vento, com sol, com chuva,
O rio vai pro mar, o rio vem pro mar.
O mundo gira e desgira e gira outra vez.
O sol nasce e se põe e nasce outra vez.
A Lua ilumina e desilumina a noite,
Esconde e desesconde o brilho das estrelas.
Chuva vai, chuva vem, chuva vai.
Tudo tão depressa, tudo tão devagar.
O tempo vai, vai, vai:
Corre e não volta,
Faz-nos grandes e nos faz pequenos,
Leva-nos e não nos traz.

Wiler Jr. - 19/01/2015

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domingo, 7 de setembro de 2014

BREVIDADE

É noite.
Lua no céu,
Estrelas a se perder de vista;
Tamanha imensidão,
Tamanha pequenez.

Faz aquele rapaz pensar.

Faz aquele rapaz pensar no quão pequeno é em carne
E no quão grande pode ser em espírito e significar algo para o mundo.
E isso basta.

Faz aquele rapaz pensar no quão curta é a vida
E no quão grandes são os sonhos que quer realizar;
Na vontade de não ser apenas mais um que passou por esta terra,
Mas um que fez algo pelos que passarão por ela.

Faz aquele rapaz pensar nas inúmeras pedras que encontrará pelo caminho
E nas decisões que terá de tomar sozinho;
Nos tempos em que quase sucumbirá à exaustão
E nas pessoas que tentarão jogá-lo no chão.

Faz aquele rapaz pensar no acaso
E no quão incerta é a certeza de que haverá um novo dia pra se viver
E no quão grande é a quantidade de gente que não viu raiar mais um dia:
Um novo dia para sonhar;
Um novo dia para lutar.

O tempo corre;
A estrada é curta.
Ele era um menino soltando pipa e jogando bola até pouco tempo atrás;
Hoje é quase homem feito, andando por caminhos que a vida o deixou escolher.
Não sabe o que o futuro lhe reserva, mas faz planos de quem sabe.

Logo terá família formada,
Cuidará de filhos para entregar ao mundo,
Tal qual fizeram mãe e pai
E os avós antes deles.
Eles também verão quão curto é o tempo,
Mas deixarão sua marca por aqui.

A simples existência não os confortará e eles lutarão por um legado;
Não passarão por aqui em branco;
Não pisarão a terra sem deixar o que a ela é ordenado.
Viverão.
Pagarão por terem recebido o dom da vida apesar de terem que devolvê-lo
                                                                                    [em algum momento.

Aquele rapaz pensa.
E sorri.
O tempo é curto
Mas suficiente;
Só é passado pra frente.

Wiler Jr. - 06/07/2014



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