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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

PEQUENAS COISAS

Ontem abri a lanchonete um pouco atrasado. A meninada do colégio ao lado ia chegando e já se acomodava no muro do lugar e nos bancos da praça logo em frente. Meu primeiro cliente foi um menino do colégio, tendo seus onze ou doze anos. Como de costume, perguntei do jeito que faço com os outros alunos:
- Que que cê manda, Pequeno?
- Oi - ele respondeu, timidamente. - Eu vou querer um bombom.
Peguei o bombom. O menino remexeu num bolso da mochila, tirou umas moedinhas e as ajeitou e contou em cima do balcão.
- Ah. Vou levar mais um.
Entreguei para ele e perguntei, brincando:
- É pra namorada?
- Não, não - ele respondeu, sorrindo; satisfação na voz. - É pro meu irmão. Hoje é aniversário dele.
Fiquei sem ação. Só respondi um "Então tá bom", sorri para ele, agradeci e recolhi suas moedinhas. Não tinha mais o que dizer ou fazer.
Ali, como em muitas outras vezes nesses meus vinte e poucos anos de vida, eu vi o valor das pequenas coisas superando o das grandes. "Pequenas coisas", a que me refiro aqui, não são os bombons, o tamanho ou o preço deles.
"Pequenas coisas", a que me refiro aqui, são a representação dos bombons e a intenção do menino ao comprá-los como um presente.
"Pequenas coisas", a que me refiro aqui, são as coisas que o menino pode ter feito para conseguir aquelas moedinhas para comprar algo para si, mas sacrificou seu desejo e comprou para o irmão a fim de agradá-lo no dia de seu aniversário.
"Pequenas coisas", a que me refiro aqui, são capazes de superar o maior dos presentes no que diz respeito a tamanho ou preço.
"Pequenas coisas", a que me refiro aqui, são a representação do amor e do respeito.


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quinta-feira, 21 de julho de 2016

FRIAGEM


Clarão no céu.
Ela, tão clara que as estrelas sucumbem à sua luz,
Tão bela que os olhos, em vislumbre, cintilam sem se mover,
Tão sublime que até os corações mais duros se amolecem,
Tão grande que até os que se sentem maiores que os outros se sentem pequenos.

Sob ela, a imensidão do nosso chão
Assolada por um frio cruel, quente a seu modo.
A cerração de friagem se arrastando de uma banda para outra,
Separando e juntando de novo,
Espalhando seu gélido calor por sobre os morros e campos, riachos e lagos,
Encolhendo os seres em seus ninhos,
Fazendo eriçarem-se pelos e penas,
Murcharem as folhas e secarem as ervas,
Sumirem os botões e as flores,
Gelarem tudo do nariz aos pulmões a cada suspirar.
Ato, esse, vislumbrado,
Bem à vista da silhueta redonda que espia lá de cima, imponente.

Grilos no mato? Poucos.
Sapos no brejinho? Nem pensar!
Cachorros latindo? Covardia debaixo de pelos, diria um.
Nem os compadres saíram para prosear.

E lá cai a madrugada.
Madrugada escondida, oculta, invisível.
Nada à vista senão a brancura perambulante da cerração densa,
Um véu de ilusão se arrastando pela noite.

Wiler Jr. - 21/07/2016

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